Terminei de mastigar o livro do Santiag(atinh)o Nazarian há alguns dias.
Para mim o mais interessante de tudo é como ele mostra - com ironia finíssima - as engrenagens que inventamos para dar sentido a nossa existência.
Como seguimos regras criadas sei-lá-quando, impostas por sei-lá-quem, sem questionar - por falta de inquietação ou puro comodismo?
Como quem as estranha causa estranhamento e se sente um estranho.
Ontem presenciei como se retroalimenta a engrenagem de uma grande corporação. Parece que trabalhar em um lugar desses é tão entediante, massacrante, imbecilizante e outros "ante", que é necessário um evento bem "ante" para tentar convencer as pessoas de que vale a pena continuar. De que elas têm valor por fazerem parte da grande corporação. E criam-se estruturas e hierarquias e reuniões para manter todos supostamente motivados. Como se as pessoas não tivessem vida lá fora e aquilo não fosse tão-somente o seu ganha-pão.
A verdade é que a estrutura tem o efeito contrário à eficiência esperada: tudo dividido em departamentos faz com que ninguém tenha acesso a informação nenhuma; quem está lá em cima nem sabe dos problemas dos trabalhadores e de como haveria soluções muito mais simples e satisfatórias para eles e para a própria empresa. Os trabalhadores não fazem a mínima idéia de seu destino próximo ou de quem o decide. E quem está no meio: os famigerados gerentes - não passam informação, seja por orgulho, por medo de ser notado, por estupidez ou sadismo.
As hierarquias criadas para premiar só fazem a maioria não premiada sentir-se injustiçada e desmotivada.
E, finalmente, as reuniões e mais reuniões como essas de ontem, completamente inúteis para o trabalho a ser feito, palavras vazias jogadas para mentes dispersas. Tudo isso poderia ser revertido em melhores salários e condições de trabalho, o que motivaria muito mais! Quem quer um palito de marshmallow no Dia das Crianças? Minha parte em ficha de flíper, por favor?
Essa engrenagem corporativa, porém, assim como a organização dos ratos - vejam bem: RATOS - e a Universidade narradas por Santiago, é retroalimentada por aqueles que dela se beneficiam: os executivos. Eles que ficam lá, palestrando aos cordeirinhos, todos muito espirituosos e inteligentes e carismáticos, tropeçando milimetricamente em anglicismos enquanto inflam seus egos já crescidos - por isso as salas de conferência espaçosas! É como o Congresso votando somente em leis que beneficiam os próprios parlamentares. Já repararam que, em plena era da transmissão de dados remota e imediata, as empresas continuam investindo rios de dinheiro em viagens? Congressos e reuniões boladas pelos próprios executivos para... eles mesmos! Tudo inútil e despropositado, para usar de eufemismos.
Sei que estou sendo repetitiva, que tudo isso já foi explorado pelos nossos dilberts, mas não resisti.